3 de junho de 2011

Para perder a paciência

Por Renata Souza

Como funciona a sociedade? É o que estou tentando descobrir desde o ano passado, quando fiz o curso cujo título corresponde a esta mesma indagação. O curso, ministrado pelo Núcleo de Educação Popular 13 de maio, reuniu no último fim de semana (28 e 29/5) militantes de direitos humanos, de favelas, da cultura, mestrandos e doutorandos para a sua segunda fase. O público heterogêneo passou dois dias em contêineres improvisados no campus da UFRJ, na Praia Vermelha, usados para substituírem as salas de aula sucateadas até fisicamente pelo Estado. Enquanto o educador de nossa classe, como se autodefiniu o professor Scapi, travava uma batalha para explicar a tal "economia política", eu me sentia a própria mercadoria dentro daquele contêiner.


 Um filme rápido passou em minha cabeça. Lembrei do quanto almejava me graduar pela UFRJ, estudar na Ilha do Fundão, pertinho do meu lugar, o Complexo da Maré. Fazia planos de ir para as aulas de bicicleta, ou mesmo a pé, mas a primeira frustração veio quando descobri que o curso de comunicação era no campus da Praia Vermelha. A segunda frustração foi perceber o quanto seria difícil ingressar em qualquer universidade com o nível de instrução que obtive nas escolas pública pelas quais passei. Mesmo assim, sonhava com a universidade pública, aquela de excelência. Depois de três anos no pré-vestibular comunitário da Maré, tentando recuperar o conhecimento não obtido na escola, não foi difícil entrar para a graduação de comunicação da PUC-Rio com 100% de bolsa. Lá, encontrei uma estrutura de dar inveja a qualquer universidade pública. No entanto, o sonho de entrar para a UFRJ não caiu no esquecimento. Por isso, em 2010, ingressei no mestrado da Escola de Comunicação da UFRJ.

Pelo olhar de dentro, por fazer parte dessa comunidade acadêmica, percebo o quanto é significativo observar o espaço da UFRJ cedido para um curso voltado à classe trabalhadora. Não pretendo fazer uma análise sobre as funções da universidade, mas as palavras do Scapi: "esse é um lugar da burguesia", pululam na minha cabeça. Mesmo com o reconhecimento de que há acadêmicos da nossa classe construindo trincheiras a cada aula ministrada nesse espaço, o educador enfatizou a necessidade de ter a nossa própria universidade. A urgência de fazer de maneira qualificada a nossa contra-hegemonia, com os instrumentos criados e pensados por nossa classe. Concordo plenamente com o Scapi, mas, ao observar o capital, com a ajuda e o aval do Estado, investir pesadamente na mercantilização do ensino, me sinto a própria mercadoria alienada. No entanto, agora começo a perder a paciência porque, como bem citou o nosso educador, ao final do curso, um poema de Mauro Iasi, "Quando os trabalhadores perderem a paciência/ Não terá governo nem direito sem justiça/ Nem juízes, nem doutores em sapiência/ Nem padres, nem excelências ...".

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